Palavrões Também São Importantes

Publicado em 06/10/200604/05/2014 por Bruno Russo

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes  e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a “vulgarização” do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.

//“Pra caralho”//, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que //“pra caralho”//? //“Pra caralho”// tende ao infinito, quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do //“pra caralho”//, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso //“nem fodendo!”//. O //“não, não e não!”// e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade //“não, absolutamente não!”// o substituem. O //“nem fodendo”// é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo //“Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”//. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Caetano Veloso.

Por sua vez, o //“porra nenhuma!”// atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um //“é PhD porra nenhuma!”//, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O //“porra nenhuma”//, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um //“puta-que-pariu!”//, ou seu correlato //“puta-que-o-pariu!”//, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba… Diante de uma notícia irritante qualquer um //“puta-que-o-pariu!”// dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso //“vai tomar no cu!”//? E sua maravilhosa e reforçadora derivação //“vai tomar no meio do seu cu!”//. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: //“Chega! Vai tomar no meio do seu cu!”//. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: //“Fodeu!”//. E sua derivação mais avassaladora ainda: //“Fodeu de vez!”//. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? //“Fodeu de vez!”//.

Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de //“foda-se!”// que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do //“foda-se!”//? O //“foda-se!”// aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. //“Não quer sair comigo? Então foda-se!”//. //“Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!”//. O direito ao //“foda-se!”// deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e FODA-SE!

//Texto recebido por e-mail, autor:  **Luís Fernando Veríssimo** //

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