Are you HANDS ON?

Publicado em 25/10/200704/05/2014 por Bruno Russo

Vi um anúncio de emprego. A vaga era de gestor de atendimento interno, nome que agora se dá à seção de serviços gerais. E a empresa contratante exigia que os eventuais interessados possuíssem – sem contar a formação superior, iderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática, fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem hands on. Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía mesmo essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800 reais.

Ou seja, um pitico. Não que esse fosse algum exemplo absolutamente fora da realidade. Pelo contrário, ele é quase o paradigma dos anúncios de emprego atuais. A abundância de candidatos está permitindo que as empresas levantem, cada vez mais, a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido. E muitos, de fato, saltam. E se empolgam. E aí vêm as agruras da super-qualificação, que é uma espécie do lado avesso do efeito pitico…

Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de atendimento interno. E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges, gerente da contabilidade:

– Fabiana, eu quero três cópias deste relatório. – In a hurry! – Saúde. – Não, isso quer dizer “bem rapidinho”. É que eu tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português? – E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias? – O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho profundos conhecimentos de informática. – Não, não. Cópias normais mesmo. – Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que tiramos. – Fabiana, desse jeito não vai dar! – E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar. – Como assim? – É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um desperdício do meu potencial energético. – Olha, neste momento, eu só preciso das três có…. – Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro… – Futuro? Que futuro? – É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não aconteceu nada.O senhor é hands on? – Hã? – Hands on. Mão na massa. – Claro que sou! – Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu fui contratada.

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções:

  1. Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as qualificações requeridas.
  2. E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.

    Alguém ponderará – com justa razão – que a empresa está de olho no longo prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores.

    Em uma empresa em que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante desavisado que chegasse de repente confundiria nossa salinha do café com o auditório da Fundação Alfred Nobel.

    Pessoas superqualificadas não resolvem simples problemas!

Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas fábricas e no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto, motorista da van. E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha noções e informática e possuía energia e criatividade. Sem mencionar que estava fazendo pós-graduação. Só que não sabia nem abrir o capô.Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de bicicleta. Para horror de todos, ele falava “nóis vai” e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida. Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as empresas modernas torcem o nariz:“O que é capaz de resolver, mas não de impressionar”.

“A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser avaliados pela forma como tratam seus animais.” – Ghandi

“Se colorir não imprima. Se imprimir seja consciente! Vamos ajudar a preservar o meio ambiente e os recursos da empresa.”

Texto recebido por e-mail, autor desconhecido

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